Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 22 de janeiro de 2017

Pablo Neruda - Dever do Poeta

Nesta tradução do poeta português Luís Pignatelli, Neruda articula proposições sobre o que haveria de ser o dever do poeta: um homem compromissado com a história, por meio da ação política. O lirismo em suas palavras não significa, por isso mesmo, alheamento, distanciamento das graves questões quotidianas.

A poesia surge, assim, de um senso de responsabilidade social, revestindo-se de um papel público – em casa, na oficina, na fábrica, na prisão, na rua, onde quer que se esteja –, a manifestar a sua potencial força libertadora. Eis aí a missão do poeta: atenuar o peso aos agrilhoados, cativos da labuta diária, para que possam abrir a janela da mente à plenitude e à beleza da vida.

J.A.R. – H.C.

Pablo Neruda
(1904-1973)

Deber del Poeta

A quien no escucha el mar en este viernes
por Ia manana, a quien adentro de algo,
casa, oficina, fábrica o mujer,
o calle o mina o seco calabozo:
a este yo acudo y sin hablar ni ver
llego y abro Ia puerta del encierro
y un sin fin se oye vago en Ia insistência,
un largo trueno roto se encadena
al peso del planeta y de Ia espuma,
surgen los rios roncos del oceano,
vibra veloz en su rosal Ia estrella
y el mar palpita, muere y continua.

Así por el destino conducido
debo sin trégua oír y conservar
el lamento marino en mi conciencia,
debo sentir el golpe de agua dura
y recogerlo en una taza eterna
para que donde esté el encarcelado,
donde sufra el castigo del otoño
yo esté presente con una ola errante,
yo circule a través de Ias ventanas
y al oírme levante Ia mirada
diciendo: como me acercaré al oceano?
Y yo transmitiré sin decir nada
los ecos estrellados de Ia ola,
un quebranto de espuma y arenales,
un susurro de sal que se retira,
el grito gris del ave de Ia costa.

Y así, por mí, Ia libertad y el mar
responderán al corazón oscuro.

Homero
(Autoria Desconhecida)

Dever do Poeta

Àquele que não escuta o mar nesta manhã
de sexta-feira, e encarcerado está dentro de algo,
casa, escritório, fábrica ou mulher,
ou rua ou mina ou árido calabouço...
a esse acorro eu e sem falar nem ver
chego e abro a porta da clausura
e ao abri-la um vago borborinho ouve-se dentro,
um longo trovão desfeito encorpora-se
ao peso do planeta e da espuma,
surgem os rios rumorosos do oceano,
vibra veloz no seu rosal a estrela
e o mar palpita, fenece e continua.

Assim pelo destino conduzido
devo sem descanso ouvir e conservar
o lamento marinho na minha consciência,
devo sentir a pancada violenta da água
e recolhê-la numa taça eterna
para que aonde esteja o encarcerado,
aonde sofra o castigo do Outono
esteja eu presente com uma onda errante,
circule eu através das janelas
e ao ouvir-me o olhar levante
dizendo: como chegarei eu junto do oceano?
Então sem dizer nada transmitirei
os ecos rutilantes da onda,
uma derrocada de espuma e areais,
um sussurro de sal que se afasta,
o grito cinzento da ave do litoral.

E assim, a liberdade e o mar responderão
por mim ao sombrio coração.

Referência:

NERUDA, Pablo. Deber del poeta / Dever do poeta. Tradução de Luís Pignatelli. In: __________. Plenos poderes. Tradução de Luís Pignatelli. Edição bilíngue. 2. ed. Lisboa, PT: Publicações Dom Quixote, 1977. Em espanhol: p. 14 e 16; em português: p. 15 e 17. (“Poesia Século XX”; n. 8)

Nenhum comentário:

Postar um comentário