Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Augusto Frederico Schmidt - A Poesia ‎

O poeta emprega metáforas ligadas à natureza para abordar a poesia que, aflorando de fato em seu espírito, estaria ligada a atributos de sua amada, transbordando em seus olhos, desprendendo de seu corpo como se este fosse uma árvore a desafiar a eternidade.

Schmidt imprime maior acento ao sentido da visão, atravessado por toda a massa pletórica de sentimentos e pensamentos que vagueiam pelo espírito humano, em específico, o da companheira do poeta. Depois, tríplice menção à voz, no caso, vibrante, molhada e estremecida. E ao fim, transformada numa flor escura, a amada adormece e, durante o sono, a poesia nele mergulha e se aprofunda.

“Flor escura”? O que quereria dizer o poeta? Uma beleza que não reflete a sua luz? Ou seria o fato contingente de ela estar estirada ao leito, num recinto escuro? Ou ainda, em razão dos olhos e lábios fechados, a poesia não se deixar externar, senão apenas vagar num interior imperscrutável?!

J.A.R. – H.C.

Augusto Frederico Schmidt
(1906-1965)
Caricatura de Ramon Muniz

A Poesia

A poesia flutua nos teus olhos.
É uma luz que nasce
Do teu ser, do teu espírito,
E floresce nos teus olhos.

A poesia se desprende de ti, oh! árvore
De raízes fixadas no eterno.
A poesia vibra na tua voz, perpassa na tua voz.
Atravessa a tua voz molhada, veemente.

A poesia agita, estremece a tua voz
Como o vento do largo às velas dos navios
E as asas dos pássaros.

A poesia ronda o teu sono
E nele mergulha e se aprofunda
Quando adormecida te transformas numa flor escura.

Azulões e Pêssegos
(Crista Forest: pintora norte-americana)

Referência:

SCHMIDT, Augusto Frederico. A poesia. In: __________. 50 poemas escolhidos pelo autor. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura / Serviço de Documentação; Departamento de Imprensa Nacional, 1957. p. 9. (“Os Cadernos de Cultura; v. 98)

sábado, 17 de fevereiro de 2018

William Faulkner - Alma Mater ‎

O escritor e também poeta norte-americano se despede, muito provavelmente, da escola superior onde estudou, ela que, como mãe dadivosa, o proveu de “alimento” intelectual e das mesmas lembranças que jamais se apagarão da mente daqueles que por lá passaram ou ainda hão de passar.

A rigor, a falar sobre as experiências que tive quando me graduei, pela primeira vez, em engenharia elétrica, na Universidade Federal do Pará, ousaria afirmar que tal vivência perdurou-me menos pelos conhecimentos ali efetivamente hauridos, e bem mais pela abertura a um mundo de interação com outros alunos com mais traquejo na vida do que o que eu tinha até então. Seja como for, “alma mater”: tornei-me para sempre estudante por profissão!

J.A.R. – H.C.

William Faulkner
(1897-1962)

Alma Mater

All our eyes and hearts look up to thee,
For here all our voiceless dreams are spun
Between thy walls, quiet in dignity
Lent by the spirits of them whose lives begun
Within thy portals. Through them we can see
Upon the mountain top the shining sun
Success, drawing us infinitely
Upwardly, until Life and Task are one.

The beginning, not the end, is this.
Onward, by her unremitting grace
With memories that nothing can efface
Throned securely in our hearts; to Kiss
– Holding, and held by her in fond embrace –
At parting, her kind calmly dreaming face.

Os Portões da Academia Phillips
(Claudia Verciani: pintora brasileira)

Alma Mater

Todos nossos olhos e corações procuram por ti,
Pois aqui todos nossos sonhos sem voz são tecidos
Entre teus muros, embalados em dignidade
Emprestada pelos espíritos cujas vidas despertaram
Sob os teus portais. Através deles podemos ver
Sobre o topo da montanha o sol radiante,
O Sucesso, a nos atrair infinitamente
Para cima, até que se igualem Vida e Missão.

Isso é o começo, não o fim.
Avante, por seu incessante favor
Em nos prover com inapagáveis lembranças
Deveras entronizadas em nossos corações; para Beijar
– Cingindo, e cingido por ela num afetuoso abraço –
À partida, o seu rosto meigo imerso em calmos sonhos.

Referência:

FAULKNER, William. Alma mater. In: __________. William Faulkner: early prose and poetry. Compilation and introduction by Carvel Collins. Boston, MA: Little, Brown & Company, 1962. p. 64. (An Atlantic Monthly Press Book)

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Ernst Stadler - A Sentença

Este poema nos incita a tomarmos as rédeas de nossas vidas, em busca de brasões próprios, em vez de seguir formulando justificações frívolas que mais nos afastam da genuína autoconsciência. Em suma: trocar tudo quanto revela superficialidade por outro padrão de comportamento centrado no que seja substancial, ou como diria outro autor alemão, sejamos imprescindíveis!

É por meio desse avançar elíptico que saímos de estágios que poderíamos adjetivar de fantasmáticos ou ilusórios para outros mais essencialistas, a revelarem formas superiores do ser, assim como já preconizava a máxima socrática há milênios: “Conhece-te a ti mesmo!”.

J.A.R. – H.C.

Ernst Stadler
(1883-1914)

Der Spruch
(ca. 1914)

In einem alten Buche stieß ich auf ein Wort,
Das traf mich wie ein Schlag und brennt durch meine Tage fort:
Und wenn ich mich an trübe Lust vergebe,
Schein, Lug und Spiel zu mir anstatt des Wesens hebe,
Wenn ich gefällig mich mit raschem Sinn belüge,
Als wäre Dunkles klar, als wenn nicht Leben tausend wild
verschloßne Tore trüge,
Und Worte wiederspreche, deren Weite nie ich ausgefühlt,
Und Dinge fasse, deren Sein mich niemals aufgewühlt,
Wenn mich willkommner Traum mit Sammethänden streicht,
Und Tag und Wirklichkeit von mir entweicht,
Der Welt entfremdet, fremd dem tiefsten Ich,
Dann steht das Wort mir auf: Mensch, werde wesentlich!

Retrato do Escritor Vsevolod M. Garshin
(Ilya Y. Repin: pintor russo)

A Sentença
(ca. 1914)

Num velho livro topei com uma palavra
Que me veio como um golpe e ainda arde em brasa:
E quando me entrego a um turvo prazer
Preferindo brilho, mentira e jogo em vez do puro ser,
Quando acho melhor com supérfluos me enganar,
Como se fosse claro o escuro, como se a vida não tivesse milhares
de portas a fechar,
E repito palavras cuja amplidão nunca senti,
E toco em coisas cujo sentido jamais resolvi,
Quando um sonho bem-vindo me acaricia com mãos de veludo
Aliviando-me do cotidiano sobretudo,
Longe do mundo, alheio ao mais profundo eu,
Então se ergue em mim a palavra: Homem, procura o teu apogeu!

Referência:

STADLER, Ernst. Der spruch / A sentença. Tradução de Claudia Cavalcanti. In: BECHER, Johannes R. et al. Poesia expressionista alemã: uma antologia. Organização e tradução de Claudia Cavalcanti. Edição bilíngue ilustrada. São Paulo, SP: Estação Liberdade, 2000. Em alemão: p. 180; em português: p. 181.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Martins Fontes - O Espírito da Matéria ‎

Não fosse o soneto abaixo de autoria do médico e poeta paulista, diria eu que se alguém viesse a me questionar sobre quem o compôs, não teria nenhum pudor em imputá-lo à pena do paleontólogo e jesuíta Teilhard de Chardin, pois razões ou inferências para tanto pululam à volta do seu tema, tantas vezes abordado nos escritos legados pelo francês!

Mas tudo não passa de tergiversação. Afinal, o que o poeta imagina são conexões entre a arquitetura e a música, vendo equivalentes nas manifestações clássicas de ambas as artes: ali, nos elementos decorativos que há algumas centúrias singularizavam as edificações, sobretudo das cidades europeias; aqui, nos movimentos característicos das grandes composições para orquestra. E se perceba a inversão dos sentidos tocados por tais artes: as orquestras se ouvem pelos olhos; e os prédios se veem pelos ouvidos...

J.A.R. – H.C.

Martins Fontes
(1884-1937)

O Espírito da Matéria

Também as catedrais são sinfonias:
Rege a massa coral da arquitetura
a divinização da partitura;
e ambas se irmanam por analogias!

O alegro, o adágio, o andante, a tessitura,
o arco, o fuste, o florão... Alegorias
que, pela execução das harmonias,
timbram exatas, no esplendor da altura!

E, pelos olhos, as orquestras se ouvem.
E, pelo ouvido, a torre se levanta,
Para que os sonhos da matéria louvem!

E, na sua amplitude sacrossanta,
a alma de um Brunelleschi ou de um Beethoven,
fulge na pedra, quando a pedra canta!

Em: “A Canção de Ariel” (1938)

Alegoria da Arquitetura
(Angelika Kauffmann: pintora suíça)

Referência:

FONTES, Martins. O espírito da matéria. In: __________. Poesia: antologia. Seleção e organização de Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1959. p. 90. (“Nossos Clássicos”; v. 40)

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Gaspar Núñez de Arce - A Voltaire ‎

Neste soneto dedicado pelo poeta e político espanhol ao grande pensador iluminista Voltaire, menciona-se a força devastadora das ideias preconizadas pelo francês, sobretudo aquelas que visavam erradicar o poder da Igreja do plano temporal, ou melhor, do jogo político.

De fato, o texto de Voltaire é de uma ironia que descamba fácil para o sarcasmo. E para quem se dispuser a uma leitura detida de suas obras, poderia indicar, por primeiro, o seu “Dicionário Filosófico”, em especial os verbetes em conexão com o tema religioso.

A propósito, por que não consignar, por exemplo, a influência de Voltaire sobre o seu conterrâneo Michel Onfray: o “Tratado de Ateologia” deste último é capaz de fazer qualquer um rir às escâncaras. Claro está, se as crenças religiosas não forem tomadas pelo leitor como um dogma irretocável!

E para completar o viés inconformista desta postagem, apresento, logo abaixo ao texto do poema em espanhol, uma versão ao português que manda às favas as rimas do original, extirpa os hipérbatos que possibilitam tais rimas e, pior que isso, reescreve certas passagens, muito embora – o menor dos males! – não se distancie das ideias grafadas no papel pelo poeta.

J.A.R. – H.C.

Gaspar Núñez de Arce
(1832-1903)
Retrato de Bartolomé Maura y Montaner

A Voltaie

Eres ariete formidable: nada
resiste a tu satánica ironía.
Al través del sepulcro todavía
resuena tu estridente carcajada.

Cayó bajo tu sátira acerada
cuanto la humana estupidez creía,
y hoy la razón no más sirve de guía
a la prole de Adán regenerada.

Ya solo influye en su inmortal destino
la libre religión de las ideas;
ya la fe miserable a tierra vino;

ya el Cristo se desploma; ya las teas
alumbran los misterios del camino;
ya venciste, Voltaire. ¡Maldito seas!

Voltaire
(1694-1778)
Retrato de Jacques-Augustin-Catherine Pajou

A Voltaire

És aríete formidável: nada
resiste à tua satânica ironia.
Através do sepulcro ainda
ressoa a tua estridente gargalhada.

Caíram sob tua sátira mordaz
as crenças urdidas pela estupidez humana,
e hoje a razão não serve mais de guia
à prole regenerada de Adão.

Já só influi em seu imortal destino
a livre religião das ideias;
a fé miserável precipitou-se à terra,

demolindo o sermão de Cristo; os fachos
agora clareiam os mistérios do caminho;
já venceste, Voltaire. Maldito sejas!

Referência:

ARCE, Gaspar Núñez de. A Voltaire. In: CASANOVA, José Francisco Ruiz (Selección y introducción). Antología cátedra de poesía de las letras hispánicas. 11. ed. Madrid, ES: Ediciones Cátedra (Grupo Anaya S.A.), 2014. p. 579.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

John Keats - Vendo os mármores de Elgin pela primeira vez ‎

Primeiramente, neste soneto de Keats, talvez se devesse, a bem da verdade, se fazer referência ao principal autor dos mármores a que o poeta inglês alude: Phidias, um dos principais artistas que decoraram o tempo do Parthenon, em Atenas, de onde os mármores foram retirados, a mando de Elgin, para serem transportados à Inglaterra, por mar, onde hoje se encontram no Museu Britânico. Saque cultural?! Eufemismos não deveriam ser empregados para esse tipo de ação!

Na visão do poeta, tais esculturas são belas e deslumbrantes peças concebidas pela criatividade humana, ou melhor, pela grandeza dos gregos, com poder para perdurar por centúrias aos seus autores, conferindo-lhes algum domínio sobre o tempo, embora já demonstrem algum desgaste.

Keats emprega imagens com sentidos opostos, como a claridade do sol e o turvar das nuvens, para evidenciar o embate constante das forças da estabilidade e da imortalidade contra a soberania do transitório e da finitude, ou por outra, o vetusto antagonismo entre os pontos de vista de Heráclito e de Parmênides.

J.A.R. – H.C.

John Keats
(1795-1821)
Retrato de Joseph Severn

On seeing the Elgin marbles
for the first time

My spirit is too weak; mortality
Weighs heavily on me like unwilling sleep.
And each imagin’d pinnacle and steep
Of godlike hardship tells me I must die
Like a sick eagle looking at the sky.
Yet ’tis a gentle luxury to weep,
That I have not the cloudy winds to keep
Fresh for the opening of the morning’s eye.
Such dim-conceived glories o f the brain
Bring round the heart an indescribable feud;
So do these wonders a most dizzy pain,
That mingles Grecian grandeur with the rude
Wasting of old Time – with a billowy main,
A sun, a shadow of a magnitude.

Mármores de Elgin no Museu Britânico

Vendo os mármores de Elgin
pela primeira vez

Meu espírito é frágil; ser mortal
Pesa-me como sono indesejado,
E cada abismo ou penhasco escarpado
Lá, de deus, fala que terei final
Como águia enferma a contemplar o céu.
Porém é um fausto luxo o lacrimar,
Que eu, os nevados ventos a guardar,
Não os tenha ao abrir do amanhecer.
Essas obscuras glórias do pensar
O coração envolvem em grande arfar;
Tal obra é bela dor estonteante
Que mescla a grandeur grega com o rude
Varrer do velho Tempo – alvor avante,
Um sol – a sombra dessa magnitude.

Referência:

KEATS, John. On seeing the Elgin marbles for the first time / Vendo os mármores de Elgin pela primeira vez. Tradução de José Lino Grünewald. In: GRÜNEWALD, José Lino (Seleção, tradução e organização). Grandes poetas da língua inglesa do século XX. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 1988. Em inglês: p. 56; em português: p. 57. (“Poesia de Todos os Tempos”)

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Roberto Malvezzi - Três Plágios de Brecht

Aos artistas que têm identidade com o sofrimento do povo – portanto, não exatamente aos da espécie “coxinha” (rs) –, prestamos homenagem por meio desta postagem, dividida em três poemas ao estilo da poesia engajada do alemão Bertolt Brecht, acompanhados por imagens de telas do pintor de Brodowski (SP), Cândido Portinari.

O autor, também músico, reside em Juazeiro-BA e atua na Comissão Pastoral da Terra do São Francisco: observa-se, por tal descritivo, o seu compromisso com o trabalho de conscientização política, conexo à missão diocesano-religiosa. Havendo interesse em conhecê-lo melhor, internauta, você poderá navegar pelo próprio endereço eletrônico criado por Malvezzi na internet.

J.A.R. – H.C.

Roberto Malvezzi
(n. 1953)

Meu I Plágio de Brecht

Enquanto eu era gestado,
meu pai trabalhava no campo e
minha mãe rezava uma ave-maria.
Quando cresci, fui-me embora pelo mundo.
A ligação uterina da transcendência e
da terra, porém, ficará comigo até o
fim de meus dias.

O Lavrador de Café

Meu II Plágio de Brecht

Não havia marujos cansados nas
caravelas de Cabral quando o Brasil
foi descoberto?
Se Tiradentes condensou em si a revolta
dos dominados, por que é o mártir dos
dominantes?
Por acaso Juscelino carregou nos ombros
o concreto para o palácio da Alvorada?
Não consta que os frontispícios de
Brasília contenham o suor de Niemeyer...
Os candangos ergueram Brasília: onde está
sua representação no Congresso?
As estruturas metálicas de São Paulo
estão embasadas no sangue e no suor
dos governantes ou da massa trabalhadora?
O milagre econômico – o blefe – foi operado
pelas mãos refinadas do ministro ou pelas
palmas calejadas dos operários?
Mostrem-me, por favor, onde está o túmulo
do nordestino desconhecido...
Tantas construções,
Quantas interrogações...

Café

Meu III Plágio de Brecht

Que época é essa onde os sonhos devem
se ocultar para não se tornarem ridículos?
Que época é essa onde os rostos que
sorriem podem demonstrar insensibilidade?
Que época é essa onde comer um pedaço
de pão pode ser injustiça?
Que época é essa onde parar para
contemplar pode ser omissão?
Que época é essa onde você pode
ser denunciado por seus amigos?
Que época é essa onde falar de justiça
pode trazer a condenação?
Que época é essa onde falar de liberdade
pode gerar a prisão?
Que época é essa onde andar pelas ruas
é correr ao encontro da morte?
Que época é essa onde sobreviver
é um acaso?

Retirantes

Referência:

MALVEZZI, Roberto. Meu I plágio de Brecht / Meu II plágio de Brecht / Meu III plágio de Brecht. In: __________. Os sete pecados do capital: poeta, uma porção humana, cercada de fatos e de sonhos por todos os lados. São Paulo: Paulinas, 1982. p. 17, 54 e 57. (Grão de trigo; v. 1)

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Marcel Thiry - A poesia da rua tranquila ‎

Há um discurso do ente lírico direcionado a alguém, para que se contente em ter a felicidade ao seu alcance, agora que a rua encontrou sossego e esparge acolhedora poesia, depois de um dia ensolarado, longo e alvoroçado no centro urbano.

Fala-se em perdão e pode-se supor que há alguma indulgência no amor tranquilo vivenciado pelo destinatário da mensagem, a quem se recomenda passar a noite a usufruir o bem-querer dos irmãos, talvez camaradas, no instante mesmo em que os primeiros resplendores do ocaso espargem uma amorosa e tentadora atmosfera.

J.A.R. – H.C.

Marcel Thiry
(1897-1977)

La poésie de la rue calme

La poésie de la rue calme
Est accueillante après ce trop long jour
Comme le fut autrefois à telle âme
Tel calme amour

Ne cherche pas d’autres images
Pour dire le pardon qui descend sur ta vie
Que celle de la rue assagie
Après trop de soleil et de gens en tapage;

Contente-toi ce soir d’aimer comme des frères
Les pavés las, les calmes maisons fatiguées,
Contente-toi d’aimer les premiers réverbères,
Va, va, ne cherche pas de rime à ton bonheur!

Dans: “Poésie: 1924-1957”

O Panteão
(Antoine Blanchard: pintor francês)

A poesia da rua tranquila

A poesia da rua tranquila
É acolhedora depois deste dia demasiado longo
Como o foi anteriormente a tal alma
Tal tranquilo amor

Não procures por outras imagens
Para expressar o perdão que pousa sobre a tua vida
Além dessa da rua quieta
Depois de muito sol e pessoas em alvoroço;

Contenta-te esta noite com o amor dos irmãos
As calçadas extenuadas, as casas fatigadas e tranquilas,
Contenta-te com o amor dos primeiros revérberos,
Vai, vai, não procures rima para a tua felicidade!

De: “Poesia‎: 1924-1957” 

Referência:

THIRY, Marcel. La poésie de la rue calme. In: DÉCAUDIN, Michel (Éd.). Anthologie de la poésie française du XXe siècle. Préface de Claude Roy. Édition revue et augmentée. Paris, FR: Gallimard, 2000. p. 376.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Dylan Thomas - Colina das Samambaias

O sujeito lírico detém-se a rememorar, com muita imaginação, os dias felizes e despreocupados passados numa fazenda interiorana, alheio à passagem de sua juventude, usufruindo certo padrão de felicidade conectado ao sentido de identidade com aquele cenário pastoril.

“Fern Hill” é um lugar mágico, pleno de carga emocional, onde cabem a lua, os pássaros, as plantas, os animais, o mar – a natureza em suma –, tudo fixado indelevelmente na mente de uma criança. Mas “Fern Hill” é, do mesmo modo, o trânsito para o mundo da experiência, da perda da inocência, rumo à maturidade.

Assim, passa o poeta das belas paisagens rurais, onde se sente seguro e confiante, para outras instâncias sob as quais o “pathos” de impermanência ou transitoriedade torna-se manifesto, turbando o frescor e a vitalidade das experiências da primeira idade.

J.A.R. – H.C.

Dylan Thomas
(1914-1953)

Fern Hill

Now as I was young and easy under the apple boughs
About the lilting house and happy as the grass was green,
The night above the dingle starry,
Time let me hail and climb
Golden in the heydays of his eyes,
And honoured among wagons I was prince of the apple towns
And once below a time I lordly had the trees and leaves
Trail with daisies and barley
Down the rivers of the windfall light.

And as I was green and carefree, famous among the barns
About the happy yard and singing as the farm was home,
In the sun that is young once only,
Time let me play and be
Golden in the mercy of his means,
And green and golden I was huntsman and herdsman, the calves
Sang to my horn, the foxes on the hills barked clear and cold,
And the sabbath rang slowly
In the pebbles of the holy streams.

All the sun long it was running, it was lovely, the hay
Fields high as the house, the tunes from the chimneys, it was air
And playing, lovely and watery
And fire green as grass.
And nightly under the simple stars
As I rode to sleep the owls were bearing the farm away,
All the moon long I heard, blessed among stables, the nightjars
Flying with the ricks, and the horses
Flashing into the dark.

And then to awake, and the farm, like a wanderer white
With the dew, come back, the cock on his shoulder: it was all
Shining, it was Adam and maiden,
The sky gathered again
And the sun grew round that very day.
So it must have been after the birth of the simple light
In the first, spinning place, the spellbound horses walking warm
Out of the whinnying green stable
On to the fields of praise.

And honoured among foxes and pheasants by the gay house
Under the new made clouds and happy as the heart was long,
In the sun born over and over,
I ran my heedless ways,
My wishes raced through the house high hay
And nothing I cared, at my sky blue trades, that time allows
In all his tuneful turning so few and such morning songs
Before the children green and golden
Follow him out of grace.

Nothing I cared, in the lamb white days, that time would take me
Up to the swallow thronged loft by the shadow of my hand,
In the moon that is always rising,
Nor that riding to sleep
I should hear him fly with the high fields
And wake to the farm forever fled from the childless land.
Oh as I was young and easy in the mercy of his means,
Time held me green and dying
Though I sang in my chains like the sea.

In: “Deaths and Entrances” (1946)

Colina das Samambaias
(Diana Lehr: artista norte-americana)

Colina das Samambaias

Quando, junto à casa em festa, sob os ramos da macieira,
Eu era lépido e jovem, e feliz como era verde a relva,
A noite suspensa sobre as estrelas do desfiladeiro,
O tempo a permitir que eu gritasse e me erguesse,
Dourado, no fulgurante apogeu de seus olhos,
Eu, venerado entre as carroças, era o príncipe da cidade das maçãs,
E certa vez, com orgulho, fiz com que as árvores e as folhas
Se arrastassem com margaridas e cevada
Até os rios iluminados pelos frutos caídos sobre a terra.

E como era moço e descuidado, famoso entre os celeiros
Ao redor do pátio feliz, e cantava, pois a fazenda era o meu lar,
Sob o sol, que é jovem apenas uma vez,
O tempo deixava-me brincar e ser dourado
Na misericórdia de seus bens,
E, verde e dourado, eu era caçador e pastor, mugiam os bezerros
Ao som de minha trompa, das colinas vinha o uivo claro e frio das
raposas,
E lentamente ecoava a celebração do domingo
Nos seixos dos córregos sagrados.

Tudo fluía e era belo sob o sol: os campos de feno
Altos como a casa, a música das chaminés, tudo era ar
E ecoava, cheio de água e sortilégio,
E o fogo era tão verde quanto a relva,
E à noite, sob a luz das estrelas humildes,
Enquanto eu cavalgava rumo ao sono, as corujas subjugavam a
fazenda,
E sob a lua, abençoado entre os estábulos, eu ouvia os noitibós
Voando entre as medas, e os cavalos
Que flamejavam em meio às trevas.

E então, ao despertar, a fazenda, como um vagabundo
Branco de orvalho, regressa com o galo sobre o ombro: tudo
Fulgia, tudo era Adão e a sua donzela,
O céu se adensava outra vez
E o sol crescia ao redor daquele dia imaculado.
Assim deve ter sido após o nascimento da luz elementar
No primitivo espaço giratório, e os ardentes cavalos encantados
Saíam relinchando da verde estrebaria
Rumo aos campos da celebração.

E na casa em festa, venerado entre raposas e faisões,
Sob as nuvens recém-formadas, e tão feliz quanto era grande o
coração,
Ao sol que renasce a cada dia,
Eu corria por meus caminhos temerários,
Meus desejos se precipitavam pelo alto feno da casa
E nada me importava, em meu comércio celestial, pois o tempo
Em suas órbitas melodiosas, só concede raras canções matinais
Antes que as crianças verdes e douradas
O acompanham até o estertor da graça,

Nada me importava, nos dias brancos como cordeiros, que
o tempo me levasse,
Pela sombra de minhas mãos, até o paiol cheio de andorinhas,
Sob a lua que jamais deixa de galgar os céus,
Nem mesmo, ao cavalgar rumo ao sono,
Que chegasse a ouvi-la flutuar entre os altos campos
E acordasse na fazenda apagada para sempre nessa terra sem
crianças,
Ah! Quando eu era lépido e jovem, na misericórdia de seus bens,
O tempo subjugou-me, verde e agonizante,
Embora eu cantasse em meus grilhões como canta o mar.

Em: “Mortes e Entradas” (1946)

Referências:

Em Inglês

THOMAS, Dylan. Fern hill. In: __________. Collected poems: 1934-1952. 1st. ed.; 12th rep. London, EN: J. M. Dent & Sons Ltd., may 1959. p. 159-161

Em Português

THOMAS, Dylan. Colina das samambaias. Tradução de Ivan Junqueira. In: __________. Poemas reunidos: 1934-1953. Editados pelos professores Walford Davies e Ralph Maud. Rio de Janeiro, RJ: José Olympio, 1991. p. 123-124.