Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 22 de julho de 2017

Brasileirão 2017 – 15ª Rodada – Projeções do Modelo Esotérico-‎Matemático (MEM)‎

Mais cinco rodadas, desde a primeira projeção do MEM para o Brasileirão 2017, e tivemos a surpreendente subida de produção do Sport, paralelamente à não menos surpreendente queda de performance do São Paulo.

No geral, houve oscilação demais entre as projeções da 10ª rodada e a desta 15ª, a evidenciar que poucos são os times que têm demonstrado estabilidade de desempenho, os quais, não por outras razões, quando isso se manifesta, posicionam-se no topo da tabela de classificação.

No plano das defesas, ao tempo que a do Corinthians manteve a sua grande eficácia de neutralização dos ataques, a do Santos se lhe igualou no número de tentos tomados nas dez últimas rodadas – apenas quatro –, o que explica a subida do time praiano na projeção para o fim do certame. Na outra ponta, as defesas do Vitória (21 gols) e Chapecoense (20) foram as mais vazadas nesse ínterim.

Quanto aos ataques, os do Palmeiras (18 gols), Flamengo (17) e Sport (17) apresentaram alto poder de fogo, muito distintamente dos do Avaí (8 gols) e Atlético-GO (8), cujo índice sequer atinge um gol por partida.

Aí está, em rápidas linhas, o que se tem a dizer sobre o ocorrido no Brasileirão 2017, desde a décima rodada até o presente momento. Ao final do 1º turno, vale dizer, daqui a quatro rodadas, apresentaremos nova projeção do MEM. Um abraço a todo(a)s.

J.A.R. – H.C.

Fontes:






 

W. H. Auden - Palavras

Quando pronunciadas, as palavras gozam do poder de engendrar o mundo. Mas não têm elas o vocábulo para nomear as palavras que não são verdadeiras, tudo porque duvidamos do falante e não da língua que escutamos.

Mas se o nosso interesse é rumorejar todo tempo, afirma-nos o poeta que basta-nos os próprios fatos, a parecerem-lhe bem mais propícios à própria elaboração da ficção. Eis aí a enunciação de um ‘preparatio modum’ de um texto poético, prescrito pelo estilista W. H. Auden...

J.A.R. – H.C.

W. H. Auden
(1907-1973)

Words

A sentence uttered makes a world appear
Where ali things happen as it says they do;
We doubt the speaker, not the tongue we hear:
Words have no word for words that are not true.

Syntactically, though, it must be clear;
One cannot change the subject half-way through,
Nor alter tenses to appease the ear:
Arcadian tales are hard-luck stories too.

But should we want to gossip ali the time,
Were fact not fiction for us at its best,
Or fm d a charm in syllables that rhyme,

Were not our fate by verbal chance expressed,
As rustics in a ring-dance pantomime
The Knight at some lone cross-roads ofhis quest?

(1956)

Alegoria da Poesia
(Auger Lucas: pintor francês)

Palavras

Nasce um mundo da frase pronunciada
Onde tudo acontece tal e qual;
Na palavra a palavra está empenhada:
À fala, não ao falante, dá-se o aval.

Clara seja a sintaxe, e mais: que nada
Mude ao tema seu fluxo natural
Nem troque os tempos por amor à toada
Pois há tristes versões de pastoral.

Para que um blablablá interminável
Se os fatos são nossa melhor ficção?
Antes o verbo facilmente achável

Do que da rima a falsa encantação,
Qual dança de zagais mima o insondável
Cavaleiro a vagar na solidão.

Referência:

AUDEN, W. H. Words / Palavras. Tradução de João Moura Jr. In: __________. Poemas. Seleção de José Moura Jr. Tradução e introdução de José Paulo Paes e João Moura Jr. Edição bilíngue. 1. reimp. São Paulo, SP: Companhia das Letras. 1986. Em inglês: p. 164; em português: p. 165.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Luís Aranha - O aeroplano

Primeiramente o poeta desejaria subir ao mais alto dos céus em um aeroplano, para ver as coisas daqui da terra cada vez mais diminutas. Acima, portanto, de qualquer zigurate criado por mãos humanas ou, mesmo, para além dos picos mais elevados de que a natureza proveu este planeta-laboratório.

Depois, cairia em torvelinhos lá de cima, em cambalhotas, ‘loopings’ fantásticos, vertiginosos – e veja bem, leitor, tudo isso numa experiência que levaria dias! Assim, quem sabe em dado momento viria ele a se desprender do aeroplano, para vagar livremente pelo espaço, abrindo os braços e, ao fim, sendo acolhido por um vasto amplexo citadino...

Tudo não passa, é claro, de um estado de arrebatamento, traduzido em palavras, frente à emergente parafernália tecnológica que aumentou a velocidade de fluência do tempo nas grandes cidades, irreversivelmente!

J.A.R. – H.C.

Luís Aranha
(1901-1987)

O aeroplano

Quisera ser um ás para voar bem alto
Sobre a cidade de meu berço!
Bem mais alto que os lamentos bronze
Das catedrais catalépticas;
Muito rente do azul quase a sumir no céu
Longe da casaria que diminui
Longe, bem longe deste chão de asfalto...

Eu quisera pairar sobre a cidade!...

O motor cantaria
No anfiteatro azul apainelado
A sua roncante sinfonia...
Oh! voar sem pousar no espaço que se estira
Meu, só meu;
Atravessando os ventos assombrados
Pela minha ousadia de subir
Até onde só eles atingiram!...

Girar no alto
E em rápida descida
Cair em torvelinhos
Como ave ferida...

Dar cambalhotas repentinas
Loopings fantásticos
Saltos mortais
Como um atleta elástico de aço

O ranger rascante do motor...
No anfiteatro com painéis de nuvens
Tambor...

Se um dia
O meu corpo escapasse ao aeroplano,
Eu abriria os braços com ardor
Para o mergulho azul na tarde transparente...
Como seria semelhante
A um anjo de corpo desfraldado
Asas abertas, precipitado
Sobre a terra distante...

Riscando o céu na minha busca
Rápida e precisa,
Cortando o ar em êxtase no espaço
Meu corpo cantaria,
Sibilando
A sinfonia da velocidade.

E eu tombaria
Entre os braços abertos da cidade...

Ser aviador para voar bem alto!

Piloto no Aeroplano
(Autoria não identificada)

Elucidário:

Ás: exímio, hábil, especialista;
Cataléptico: contraído rigidamente, como se sofresse de catalepsia;
Apainelado: em forma de painel;
Rascante: diz-se do som áspero, que arranha.

Referência:

ARANHA, Luís. O aeroplano. In: __________. Cocktails. Org. por Nelson Ascher e Rui Moreira Leite. São Paulo, SP: Brasiliense, 1984. p. 95-96.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

J. V. Cunningham - Aos Meus Contemporâneos

Escrever poesias não é tão fácil quanto possa parecer. Digo melhor, poesia de qualidade, que ambicione ser arte a perdurar no universo da literatura – e não qualquer texto de duvidosos predicados ou pretensões.

Essa é mais ou menos a mensagem que Cunningham dirige aos seus contemporâneos, jovens ambiciosos que produzem muito “ruído espiritual”, mas limitado trabalho de valor, para os quais faltam experiência e bom senso, só alcançáveis com o passar do tempo.

J.A.R. – H.C.

J. V. Cunningham
(1911-1985)

For My Contemporaries

How time reverses
The proud in heart!
I now make verses
Who aimed at art.

But I sleep well.
Ambitious boys
Whose big lines swell
With spiritual noise,

Despise me not,
And be not queasy
To praise somewhat:
Verse is not easy.

But rage who will.
Time that procured me
Good sense and skill
Of madness cured me.

(1942)

Alegoria da Música e da Poesia
(Sebastiano Conca: pintor italiano)

Aos Meus Contemporâneos

Como o tempo transmuda
O que no coração há de vanglória!
Eu agora faço versos
Que se orientam à arte.

Mas durmo confortável.
Jovens ambiciosos,
Cujas grandes linhas enfatuam-se
Com rumor espiritual,

Não me desprezeis.
E não vos enfastieis
De elogiar um pouco:
Versejar não é fácil.

Mas a irritação que se vá.
Granjeou-me o tempo
Bom senso e experiência
Para curar-me da loucura.

Referência:

CUNNINGHAM, J. V. For my contemporaries. In: McCLATCHY, J. D. (Ed.). The vintage book of contemporary american poetry. 2nd ed. New York, NY: Vintage Books (A Division of Random House Inc.), march 2003. p. 80.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Vielimir Khlébnikov - O Único Livro

O poeta assume o discurso da natureza, para desvendar aquele que seria o seu maior e único livro, partindo de um elaborado recital a abranger o microcosmo do individual, até atingir o macrocosmo terreno, fluido como as águas dos inúmeros rios que menciona.

Imbricado na diatribe retórica de Khlébnikov, endereçado a toda humanidade, percebe-se a reelaboração de um conceito que já na Renascença se difunde: os livros sagrados do mundo e suas doutrinas religiosas veiculam o inefável entendimento que temos sobre o tempo e o seu domínio sobre a natureza, e o propósito maior é sintetizá-los em um único livro a dar unidade e abrangência à criação.

J.A.R. – H.C.

Vielimir Khlébnikov
(1885-1922)

Единая книга

Я видел, что черные Веды,
Коран и Евангелие,
И в шелковых досках
Книги монголов
Из праха степей,
Из кизяка благовонного,
Как это делают
Калмычки зарей,
Сложили костер
И сами легли на него
Белые вдовы в облако дыма скрывались,
Чтобы ускорить приход
Книги единой,
Чьи страницыбольшие моря,
Что трепещут крылами бабочки синей,
А шелковинка-закладка,
Где остановился взором читатель, –
Реки великие синим потоком:
Волга, где Разина ночью поют,
Желтый Нил, где молятся солнцу,
Янцекиянг, где жижа густая людей,
И ты, Миссисипи, где янки
Носят штанами звездное небо,
В звездное небо окутали ноги,
И Ганг, где темные людидеревья ума,
И Дунай, где в белом белые люди,
В белых рубахах стоят над водой,
И Замбези, где люди черней сапога,
И бурная Обь, где бога секут
И ставят в угол глазами
Во время еды чего-нибудь жирного,
И Темза, где серая скука.
Род человечествакниги читатель,
А на обложкенадпись творца,
Имя моеписьмена голубые.
Да ты небрежно читаешь.
Больше внимания!
Слишком рассеян и смотришь лентяем,
Точно уроки закона божия.
Эти горные цепи и большие моря,
Эту единую книгу
Скоро ты, скоро прочтешь!
В этих страницах прыгает кит
И орел, огибая страницу угла,
Садится на волны морские, груди морей,
Чтоб отдохнуть на постели орлана.

O Tâmisa perto das Pontes Walton
(William Turner: pintor inglês)

O Único Livro

Vi que os negros Vedas,
o Evangelho e o Alcorão,
mais os livros dos mongóis
em suas tábuas de seda
– como as mulheres calmucas todas as manhãs –
ergueram juntos uma pira
de poeira da estepe
e odoroso estrume seco
e sobre ela pousaram.
Viúvas brancas veladas numa nuvem de fumo,
apressavam o advento
do livro único,
cujas páginas maiores que o mar
tremem como asas de borboletas safira,
e há um marcador de seda
no ponto onde o leitor parou os olhos.
Os grandes rios com sua torrente azul:
– o Volga, onde à noite celebram Rázin;
– o Nilo amarelo, onde imprecam ao Sol;
– o Yang-tze-kiang, onde há um denso lodo humano;
– e tu, Mississípi, onde os ianques
trajam calças de céu estrelado,
enrolando as pernas nas estrelas;
– e o Ganges, onde a gente escura são árvores de ciência;
– e o Danúbio, onde em branco homens brancos
de camisa branca pairam sobre a água;
– e o Zambeze, onde a gente é mais negra que uma bota;
– e o fogoso Obi, onde espancam o deus
e o voltam de olhos para a parede
quando comem iguarias gordurosas;
– e o Tâmisa, no seu tédio cinza.
O gênero humano é o leitor do livro.
Na capa, o timbre do artífice –
meu nome, em caracteres azuis.
Porém tu lês levianamente;
presta mais atenção:
és por demais aéreo, nada levas a sério.
Logo estarás lendo com fluência
– lições de uma lei divina –
estas cadeias de montanhas, estes mares imensos,
este livro único,
em cujas folhas salta a baleia
quando a águia dobrando a página no canto
desce sobre as ondas, mamas do mar,
e repousa no leito do falcão marinho.

(1920)

Referências:

Em Russo

ХЛЕБНИКОВ, Велимир. Единая книга. Disponível neste endereço. Acesso em: 18 mai. 2017.

Em Português

KHLÉBNIKOV, Vielimir. O único livro. Tradução de Haroldo de Campos. In: CAMPOS, Augusto de; CAMPOS, Haroldo de; SCHNAIDERMAN, Boris (Eds.). Poesia moderna russa: nova antologia. 3. ed. Traduções de Augusto e Haroldo de Campos com a revisão ou colaboração de Boris Schnaiderman. São Paulo, SP: Brasiliense, 1985. p. 97-98.